quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Licença, moço!

Moço. Licença, moço. Boa tarde. Obrigada. Só quero colocar aqui, para carregar. Ali, naquela tomada livre. Isso. Ah, não funciona? Ah, beleza. Vou esperar aqui, então. Isso, é, meu vôo é o próximo. Nem tenho tanto tempo não. Não, não precisa fazer isso. Pode carregar o seu sim. Imagina. Não precisa disso. A gente nem precisa tanto assim, não é? No fundo, no fundo, será que precisamos tanto assim carregar estas coisas? Carregar em todos os sentidos. Haha Carregar na mala, na bolsa, para cima, para baixo, nestes vôos. Carregar a bateria. No fundo acho que nem precisa, né? Eu carrego para manter contato, porque vôo bastante. Viajo bastante. Gosto de ver o mundo. Estou sempre por aí, por aqui. Nunca no mesmo lugar. Tipo, geograficamente as vezes, mas psicologicamente sempre no novo. Aí carrego estas coisas para me conectar, né? Manter contato. Para o pessoal saber que eu estou viva. E viva estou. Mais viva que muita gente. Porque nestas viagens, nestas idas e vindas, eu vivo. Se ficar parada não vivo não. Preciso sair por aí, para resetar, recarregar. Haha Ironia, né? Eu também preciso de carga. Não peso, mas carga, energia, bateria. A minha vem destas viagens. Vou para lá e vou para cá. Me mantendo assim, em movimento, fico carregada. Fico viva. É tão bom conversar com alguém que também está vivo. Vi o brilho dos seus olhos de longe, sabia? E agora vim aqui carregar o telefone e percebo que você também é do bem, nesta vibração diferente. Ofereceu até para esperar eu carregar o meu primeiro. Coisa linda isso. É raro de se encontrar. Agradeço mesmo. Obrigada. Coisas pequenas que mudam o ritimo da vida alheia. Para melhor. A gente carrega as coisas para manter contato e muitas vezes não percebe o mal contato humano em que vivemos. Ou não vivemos. Deixamos de viver por causa do mal contato. Quando a tomada não conecta muita gente surta, mas quando as pessoas se esbarram sem se conectar, trabalham lado a lado sem conectar, muita gente nem nota, né? Que coisa. Este mal contato humano é algo que me perturba. Acho que é por isso que viajo, me locomovo, me mexo. Porque aí consigo me envolver com coisas diferentes, me entregar por inteiro, viver intensamente e depois a próxima coisa. Antes de deixar o mal contato me atingir, me contaminar, vaso. Sumo. Por aí afora, as vezes para dentro mesmo. Enfim, entre eu e você não senti mal contato. Coisa legal, né? Bacana. Energia boa esta. Coisa boba, mas sei que vou lembrar disso e isso vai me recarregar durante esta próxima perna. Só vim conectar o negócio aqui para carregar e me conectei e estou me carregando também. Adorei, viu? Seu sorriso é lindo. Seus olhos me parecem levar paz e carinho. Obrigada mesmo. Foi um prazer. É, preciso ir. Aquele é o meu vôo sim. Estou indo lá para onde eu vim. Isso, é, sou daqui. Mas morei lá, então sou de lá também. Sou de todo lugar, na verdade. E agora, de certa forma, daqui também, deste lugar aqui, onde te conheci. Sou daqui. Um pedacinho meu é daqui. Me recarreguei aqui e agora carregarei aqui para todo lado. Obrigada. Beijo, boa tarde, bom vôo.

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